segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

UMA GOTA DE LÁGRIMA


Se possível fosse, gostaria...
No dia em que me for desta vida
O tempo ruim de minha ausência
Prenunciará tempestade em teus olhos?
Teus olhos, fiéis espelhos retrovisores
Testemunhos daquilo que representamos um ao outro
o que fariam?
Simplesmente se fechariam
Baixando lentamente as pálpebras
Recorrendo covardemente ao pano negro da escuridão
Cerne de todos os covardes
Incompetentes no amar?
Déborah,
Se pudesses separar tuas lágrimas
Gota a gota
Se pudesses discerní-las
De qual dor cada uma delas brotou
Quantas gotas a mim destinaria?
Ou eu sou apenas aquela
Já vertida há muito
Que você não hesitou em enxugar
Com o punho gasto da camisa?


Juliano Vieira

Uma gota de lágrima, do livreto "Poesias Esparsas"

HISTORIADOR


Sou historiador.
Então... o que faço?
Historio a dor
A dor que a história me causa.


Juliano Vieira

Historiador, do livreto "Poesias Esparsas"

AMORES NO TEMPO PERDIDO

Não gostaria que artérias de meu coração
Entupidas fossem por amores no tempo perdido
Amores que já não tenho
E que tanto me fizeram sofrer
E a aprender...
Aprender que amar nada mais é que compartilhar
Compartilhar o que não se tem
E doar o que não se dá
E ter um infarto a cada término
E implantar uma ponte de safena a cada recomeço.



Juliano Vieira
Amores no tempo perdido, do livreto "Poesias Esparsas"

POESIA LITORÂNEA


És Janaína nas praias que com você frequento
Ondas de meu pensamento
Sentada numa pedra faz ecoar tua cantiga
Numa linda e suave voz a atrair peixes e pescadores
E eu!
Olha-se garbosamente no espelho natural que encontra-se à sua frente
Água!
E tua linda melodia chega aos meus ouvidos
Irresístivel convite à sua irresístivel beleza
Abandono a areia da praia
Antes mesmo de escrever teu nome
E com total imprudência passo os recifes
Sem sequer olhar para as placas que indicam
Atenção: Não ultrapasse os recifes
Área de linda sereia
Deusa do Mar - Janaína Iemanjá
O mar só pra ela
O mar dela
Broto cor de rosa.


Juliano Vieira

Poesia Litorânea, do livreto "Poesias Esparsas"

domingo, 16 de janeiro de 2011

EPITÁFIO PARA O PEQUENO PRÍNCIPE

Abandonei meu mundo
Deixando para trás
Dois vulcões extintos
E uma linda rosa...
A me esperar
Cacei um cometa errante
E confiei-lhe
Meu destino!
(Todos os dias, o aeroporto na frente de casa me ensina lições de...
...partir)*
Lancei-me ao vasto universo
E o acaso me lançou como dados errantes
A este jogo
Planeta Terra!!!
Quanta diferença com o meu mundo de outrora
B-612!!!
Quanta aridez!
E como vocês daqui nomearam:
Sertão!
B-612
Talvez seja uma pequena partícula de seu sertão
Que desprendeu-se e por fim perdeu-se no espaço
Ontem, escutei o velho Gonzagão
E chorei...
"Quando o verde dos teus olhos se espalhar na plantação, eu te asseguro, não chore não, viu, que eu voltarei, viu, meu coração"**
Ah, Gonzaga, no meu sertão, lá bem longe, no espaço sideral
Também possuo a minha rosinha
Que só cresce com as águas dos meus olhos
Agora, apercebo-me aqui, neste novo planeta
Agora, com um cravo nas mãos a zelar...
Dilema...
Volto ao Brasil naexpectaviva das
612 rosas cultivar?
Quantas delas, daquelas reles brotaram?
612?
Por enquanto aguardo apenas o andar da carruagem
Desta revolução dos cravos que em mim se instaurou.

* Poética, Manuel Bandeira
** Asa Branca, Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira.
Juliano Vieira
Epitáfio para o Pequeno Príncipe, do livreto "Poesias Esparsas"

MAR MORTO


I

Mar Morto
Tez abusivamente
Salobra
Sem vida
Mar Morto
Infeliz antítese
Mar símbolo de beleza
Nunca Morto
Porém Rei posto, Rei morto
Muito sal na dieta do rei
Como pôdes? Como pódes?
Quem te fez assim?
Tua natureza?
Ou Deus e a sua ira insana?

II

Também conheço o Mar Morto
É aquela menina de olhos de jabuticaba
Infeliz antítese
Tão linda e tão triste
Colhi na ponta dos lábios
Uma gota daquele pranto
Puro sal
Tristeza
Tempero natural da sedução feminina
Mar vivo de múltiplos peixes coloridos
Mas tu... Mar Morto
Só sal
Exala morte tua tristeza


Juliano Vieira

Mar Morto, do livreto "Poesias Esparsas"

sábado, 15 de janeiro de 2011

CARO AMIGO CAFÉ COM LEITE


1. REVOLUÇÃO DE 30

Há muito que teu poder
Na esfera federal
Se extinguiu
Na aurora da década de 30
Um outro governo aportou
Inaugurando uma nova era...
Já eras o brasão que traz em tua camisa
O desbotado preto e branco
Em que ostentas...
- a bandeira -, porta estandarte natural
Das vacas holandesas
Que se exibem em vitrines
De vidros polidos em imensos açougues
De ternas carnes frescas!

2. ASSENTAMENTO

Tire esta camisa
Tal como a ideia de sua cabeça
Em insistir numa coisa vã...
Abandone a antiga política
Que favorece a apenas uma classe oligárquica:
Ora, o branco leite de Minas
A desbotar teu cérebro em cândida geleia
Fazendo-o abrir mão do racional...
E ora, o preto café paulistano
Que lhe turva o coração!

3. ANUNCIAÇÃO

Abandone a História do Brasil...
Deixe de transformar teu coração
Numa imensa biruta,
Solta ao vento!
Não deixe que teus sentimentos
Obedeçam ao léu
Essa estrada escura que bifurca em duas mulheres:
A paulista Débora
A mineira Natacha
Ora uma, ora outra
Tu eleges presidenta do teu reino cardíaco...
ATÉ QUANDO?
Não percebes que a bússola da História aponta para o Norte?
E nas mãos seguras de Vargas a bússola se esconde?
Rume para o Norte pois o Norte o aguarda
No colo de tua derradeira amada...
Carolina!
Linda! Trajando um belo vestido
Carregando um livro de páginas brancas
Ternamente, ela virará para você
E dirá:
- " A certeza na frente , a História na mão"
E a história de nossas vidas
Em nossas mãos,
Juliano!


Juliano Vieira

Caro Amigo Café com Leite, do livreto "Poesias Esparsas"